Após incêndio em 2023, Rioterra restaura área na Resex Rio Preto-Jacundá

Um total de 160 hectares estão sendo replantados dois anos após a área ser devastada pelo fogo.

Na Reserva Extrativista Rio Preto-Jacundá, o replantio que ocorre em dezembro de 2025 carrega um peso histórico que vai muito além da recuperação ambiental. A área que agora recebe novas mudas de espécies nativas já havia sido restaurada com esforço coletivo entre a Rioterra, a comunidade (ASMOREX – Associação dos moradores da Reserva Rio Preto Jacundá) e órgãos públicos como a SEDAM, após a retirada de ocupações ilegais voltadas à pecuária. Durante anos, o trabalho de restauração vinha avançando como símbolo de retomada territorial e de fortalecimento do modo de vida extrativista.

Essa conquista, no entanto, foi interrompida de forma violenta. Em setembro de 2023, um incêndio criminoso devastou cerca de 270 hectares de floresta plantada na Resex, destruindo mais de 300 mil mudas de espécies nativas. A área atingida era parte de um projeto de restauração florestal iniciado anos antes, com espécies selecionadas para recuperar o solo, proteger nascentes e garantir renda por meio do extrativismo. O ataque gerou perdas ambientais, sociais e econômicas profundas para as comunidades envolvidas.

Agora, dois anos depois, o replantio de 160 hectares representa um novo começo. São 60 hectares com plantio adensado de mudas e 100 hectares com a técnica da muvuca, que consiste na semeadura direta de espécies nativas. A expectativa é que, até 2028, a área esteja novamente coberta por mais de 1 milhão de árvores.

Imagem: casaquatro

“Esse replantio é uma resposta a perdas anteriores. A gente já havia plantado aqui há uns cinco anos, mas parte foi destruída pela ilegalidade. Agora, estamos voltando para recuperar o que sobrou e plantar o que ainda falta”, conta Pinheiro, extrativista e atual assistente administrativo da ASMOREX. “A Rioterra não é só parceira de projeto, é parceira da comunidade em todos os sentidos.”

A recuperação florestal se tornou uma missão coletiva. Para Maria do Socorro, moradora da RESEX Rio Preto Jacundá, o projeto tem valor para além do agora. “É pelos filhos, pelos netos, pelos bisnetos. É preservar o que a gente ainda tem”, diz. “A floresta é nossa casa.”

Ela destaca que as espécies escolhidas para o plantio também têm função social: são árvores frutíferas, escolhidas pela própria comunidade, que podem gerar renda e alimentação no futuro. A ação, além de restaurar o ambiente, fortalece a soberania alimentar e o extrativismo tradicional.

Imagem: casaquatro

É importante lembrar que a proteção da floresta está diretamente ligada à forma como o território é vivido e organizado por quem mora nele. Pesquisas sobre governança ambiental na Amazônia apontam que Unidades de Conservação só se mantêm efetivas quando há participação ativa das comunidades locais na gestão do território. No caso das reservas extrativistas, a floresta deixa de ser apenas um espaço físico e passa a ser um território social, construído por relações de pertencimento, regras coletivas e responsabilidades compartilhadas. 

A atuação da Rioterra se insere nesse processo como aliada da gestão comunitária do território. Ao apoiar tecnicamente o replantio, oferecer infraestrutura para as ações de restauração e articular parcerias institucionais com associações locais, a instituição contribui para que o direito à floresta seja efetivado na prática, com protagonismo das famílias extrativistas, fortalecimento da autonomia local e conservação ambiental feita a partir de dentro. A iniciativa conta com apoio da One Tree Planted e da Fundação Good Energies, representada no Brasil pela organização Porticus.

“A floresta é um centro de vida. Quem vive nela sabe que é possível produzir sem destruir. Falta raciocínio e interpretação para quem ainda não entendeu isso.” – Pinheiro

Imagem: casaquatro

Esta é a terceira matéria da série especial sobre os plantios realizados durante o período de chuvas na floresta. As reportagens acompanham, de perto, as ações que estão transformando paisagens e mentalidades, uma muda de cada vez.