Encerrando o mês das mulheres, esta matéria reúne histórias de quem vive a Amazônia não como paisagem, mas como trabalho, sustento e território de existência. Para quem observa de fora, a floresta pode parecer apenas uma imensidão verde. Mas, para mulheres como Solange, Janete e Dona Maria, ela é extensão da casa, da memória e da própria vida.
Beneficiárias e colaboradoras da Rioterra, elas mostram que a relação entre produção de alimentos e preservação ambiental acontece no cotidiano: no viveiro, na roça, no quintal, na feira e no cuidado com a terra que alimenta suas famílias e sustenta o futuro.
O ciclo da vida no Viveiro de Itapuã

Para Dona Maria, o trabalho no Viveiro da Rioterra, em Itapuã do Oeste, não é apenas uma ocupação técnica, mas a realização de um sonho. Filha de quem aprendeu a ler a floresta antes mesmo de entender a cidade, ela carrega o ensinamento do pai de que a terra é generosa com quem sabe preservar. Hoje, ela atua no coração da produção que sustenta os projetos de reflorestamento em Rondônia.
Ao caminhar entre os germinados, Maria enxerga mais do que mudas; ela vê o útero da Amazônia. “Aqui é onde a semente surge, sai do germinado e vem para os tubetes. É como se fosse o útero de uma mãe, saindo vida daqui”, descreve, emocionada ao explicar o processo que se encerra no momento em que a muda segue para as mãos dos produtores.
A identificação com a floresta é tanta que a renovação da mata se tornou sua própria filosofia de resistência. Segundo ela, a natureza ensina que, mesmo após o fogo, é preciso renascer com força. Essa resiliência reflete a árvore que Maria escolheu para projetar sua própria essência: a Faveira. “Ela é imponente, a copa é muito alta e se destaca entre todas as outras”, justifica, identificando-se com uma espécie que transpassa as dificuldades e se mantém firme no topo da floresta.
Herança e restauração:

Em Ariquemes, a rotina de Janete é um testemunho de que a força bruta do campo não anula a sensibilidade feminina. Criada para o trabalho pesado em uma época em que a floresta era vista apenas como obstáculo, ela hoje utiliza a parceria com o projeto Agro Verde, desenvolvido pela Rioterra (em parceria com a Reforest’Action e com financiamento do Amazon Biodiversity Fund) para ressignificar o passado. Janete transformou áreas pedregosas de seu sítio em uma empresa sustentável, onde o plantio de árvores nativas é o principal ativo.
Para ela, o termo guerreira ficou no passado; o presente pertence às vencedoras. Janete encontrou no apoio da Rioterra, que incluiu desde a mecanização do solo até a entrega de mudas variadas como copaíba e andiroba, o ânimo necessário para não desistir da terra. “Eu plantei o meu pedacinho. É gratificante mostrar o que é um pé de árvore para quem está nascendo”, afirma, focada em deixar um legado de sensibilidade ambiental para os filhos.
Sua conexão com o solo é tão íntima que o costume de andar descalça na mata permanece. Ao escolher a Castanheira como seu símbolo, Janete descreve uma árvore top das tops, que protege o que está ao seu redor enquanto cresce em direção ao sol, oferecendo frutos.

Bioeconomia na prática

Se em Ariquemes o foco é o renascimento, em Itapuã do Oeste, Solange colhe os frutos de uma ‘maternidade’ florestal. Em uma área que muitos consideravam perdida pela degradação, ela implementou o consórcio entre florestais, frutíferas e o café que lhe rendeu o título de melhor da região Madeira-Mamoré em 2023.

”. Através do associativismo no grupo Mulheres em Campo, ela hoje transforma polpas e café em autonomia financeira, provando que a Amazônia em pé é sinônimo de vida em abundância.

Ao projetar-se como uma Castanheira, Solange reforça o papel da mulher na bioeconomia: ser imponente para proteger, mas generosa para alimentar animais, pessoas e o futuro de seus netos.
A trajetória de Maria, Janete e Solange revela que a restauração da Amazônia não se mede apenas em hectares, mas na reconquista da autonomia de quem nela habita. Ao assumirem o protagonismo de suas terras, essas mulheres rompem com o antigo ciclo de dependência e exaustão do solo para inaugurar uma era de abundância.
Essa autonomia é o verdadeiro fruto da bioeconomia em Rondônia: uma rede de mulheres que, ao protegerem o território, garantem a própria voz e o sustento das gerações que virão. No fim, cuidar da Amazônia é, para elas, a forma mais profunda de cuidar de si mesmas e de garantir que o futuro da floresta tenha, definitivamente, o rosto e a força da mulher amazônida.