A Bahia cultiva cacau há mais de dois séculos e é hoje o maior produtor do país. Dos 64 mil estabelecimentos rurais que plantam o fruto no estado, 53 mil são da agricultura familiar, segundo o Censo Agro 2017. Ao longo dessa história, que passou por crises e por momentos de reconstrução, produtores, cooperativas, governos e universidades da região acumularam experiência em todas as etapas da cadeia, do plantio à pesquisa. Rondônia também tem sua trajetória com o cacau: o estado já foi o terceiro maior produtor do Brasil e, em 2023, conquistou a Indicação Geográfica “Rondônia Cacau”, um selo que reconhece a qualidade e a origem do produto. Ainda assim, há desafios que se repetem na vida do agricultor familiar, como ter acompanhamento técnico, acessar crédito, chegar ao mercado e incorporar novas tecnologias.

Mesmo com solo, clima e floresta diferentes, aprender com quem enfrenta essas questões há gerações ajuda a encontrar soluções adaptadas à realidade amazônica. Foi para conhecer esse caminho que a Rioterra (Centro de Inovação da Amazônia) e a Cacau Amazônia+ realizaram, em outubro de 2026, um intercâmbio no Sul e Baixo Sul da Bahia.
A comitiva foi formada por Alexis Bastos, Lucas Mancilha, Vitória Filgueiras, Jaderson Pinto e Maria Isabela Bastos, pela Rioterra, e por Edylamar Leite, Heloá Costa e Telma Barbosa, pela Cacau Amazônia+. O Instituto Arapyaú acompanhou o grupo em todas as visitas.
Assistência técnica e crédito caminhando juntos:
A programação começou com o Instituto Tabôa Fortalecimento Comunitário. O grupo visitou um produtor em Ilhéus e, em reunião no escritório do instituto, em Uruçuca, se aprofundou em programas de ATER (assistência técnica e extensão rural, o acompanhamento de técnicos junto ao agricultor na propriedade), crédito rural e sistemas de monitoramento.

A conversa toca em um ponto central do trabalho da Rioterra, que há 27 anos acompanha agricultores familiares em campo e entende que a orientação técnica sozinha não é o suficiente quando falta dinheiro para investir na lavoura, ao mesmo tempo que crédito sem acompanhamento aumenta o risco para o produtor. Entender como a Bahia combina as duas coisas, e como monitora os resultados, é uma referência para fortalecer esse apoio em Rondônia.
A força da organização coletiva:
Em Ituberá, a comitiva conheceu a sede da Coopermata, cooperativa que atua em várias frentes ao lado de agricultores familiares, com foco na diversidade de iniciativas, em inovações sociais e no desenvolvimento local. O grupo também visitou produtores cooperados em Ituberá e Igrapiúna.


Ainda em Ituberá, o encontro foi na sede do CIAPRA, o Consórcio Intermunicipal do Mosaico das Áreas de Proteção Ambiental do Baixo Sul da Bahia, com parceiros do Cacau+. O programa é executado pelo consórcio e leva assistência técnica a 2.400 agricultores familiares, com equipes das prefeituras. A principal lição foi que, por meio da cooperação, governos municipais conseguem promover o desenvolvimento da região de forma integrada, com estratégias claras e em parceria com a sociedade civil.

As duas experiências mostram que o agricultor familiar ganha força quando não está sozinho. Na cooperativa, para vender melhor e agregar valor ao que produz. No consórcio, para receber assistência técnica de forma contínua, sem depender de ações isoladas. São arranjos que podem inspirar novas parcerias entre organizações da sociedade civil, poder público e produtores rondonienses.
Agrofloresta como modelo de negócio:
Em Camamu, o grupo conheceu uma propriedade atendida pela Belterra Agroflorestas. O engenheiro agrônomo Tayrone apresentou a área, arrendada pela empresa, e explicou o modelo de produção adotado. A Belterra trabalha com sistemas agroflorestais, os SAFs, que combinam no mesmo espaço cultivos agrícolas, como o cacau, e árvores nativas ou frutíferas.


Os SAFs fazem parte do dia a dia da Rioterra, que trabalha com agricultores familiares na recuperação de áreas degradadas a partir desse modelo. Conhecer uma operação empresarial permitiu à comitiva comparar caminhos: como se organiza a implantação em escala, como se garante a manutenção das áreas e como a produção se sustenta economicamente ao longo dos anos.
Pesquisa e inovação:
A agenda terminou na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), em Ilhéus. O grupo conheceu o Centro de Inovação do Cacau (CIC), o Parque Científico e Tecnológico do Sul da Bahia (PCTSul) e o Observatório Social. O CIC oferece suporte técnico para analisar a qualidade das amêndoas de cacau, com o objetivo de agregar valor ao produto e aumentar a renda do produtor. Esses espaços trabalham com análise, classificação, informação e monitoramento, e fortalecem a produção de cacau na Bahia e no restante do país.


Para a Rioterra, essa foi uma visita que se conecta muito com sua própria atuação. Saber qual é a qualidade do cacau, de onde ele vem e como foi produzido é o que permite ao agricultor acessar mercados que pagam mais. Ver como universidade, governo e setor produtivo se articulam para gerar esse conhecimento abre ideias para aproximar ainda mais pesquisa e campo em Rondônia.

O intercâmbio deu à comitiva uma visão ampla da cadeia do cacau no sul da Bahia: a produção no campo, o acesso a crédito, a organização coletiva por meio de cooperativas e consórcios, o modelo empresarial de agrofloresta e a pesquisa feita na universidade.
A troca vale para os dois lados. Um mapeamento recente da Embrapa mostrou que, diferente do Pará, onde a expansão foi puxada pelo cultivo a pleno sol, o cacau rondoniense é cultivado principalmente em sistemas agroflorestais. É uma experiência que Rondônia também tem a compartilhar. A viagem fortaleceu o diálogo entre as instituições parceiras e abriu caminhos para novas trocas entre as duas regiões.
O intercâmbio foi possível graças à parceria entre o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), o Instituto Arapyaú, o iCS (Instituto Clima e Sociedade), e a Fundação Goodenergies.