Nenhuma floresta se recupera pelas mãos de uma única pessoa. Entre a semente coletada na mata e a árvore crescida em uma área antes degradada, existe uma cadeia de pessoas: quem coleta, quem produz a muda, quem planta, quem cuida e quem cria as condições para que esse trabalho chegue até o agricultor familiar. Por isso, as parcerias têm um peso especial no nosso trabalho. Foi com essa disposição que recebemos servidores da Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Semagric) e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema) de Porto Velho para dois dias de intercâmbio.

A aproximação tem um objetivo prático. A Semagric firmou um termo de cooperação com a Rioterra depois de identificar áreas degradadas em propriedades rurais do município. Para a engenheira ambiental Dirleide Dias, da Semagric, sem assistência técnica para recuperar essas áreas, “provavelmente a gente vai ter um êxodo rural muito maior”.
Onde tudo começa:
O primeiro dia começou na Floresta Nacional do Jamari, em Itapuã do Oeste, vizinha ao nosso viveiro. A unidade de conservação federal, com cerca de 220 mil hectares, é de onde vêm as sementes que usamos na produção de mudas. A equipe coleta sementes de árvores matrizes, que são árvores selecionadas e mapeadas como fonte de sementes. Leandro Santos, supervisor de produção de mudas, apresentou como esse trabalho é feito e mostrou o mapa onde ficam registradas todas as matrizes.




Para Dirleide, que já fez parte da equipe da Rioterra, o passeio teve sabor de reencontro. “Eu estou revendo historicamente aqui a Floresta Nacional do Jamari, onde eu participei, inclusive, da elaboração do plano de manejo. É uma gratidão imensa estar aqui revendo e revivendo todo esse lugar.”

A Flona também despertou o interesse de quem pensa em novas oportunidades para a capital. O engenheiro agrônomo Paulo Neri, da Semagric, viu na visita “uma oportunidade muito boa de conhecer novos mercados, novas oportunidades e um exemplo de sucesso aqui desenvolvido pela Rioterra em Itapuã”. Ele lembrou que Porto Velho também tem florestas nacionais em seu entorno. “A gente está tendo várias concessões e Porto Velho também tem a [Flona do] Bom Futuro ali. Então a gente tá vindo aqui ver como é a dinâmica dessas concessões e como ela pode trazer benefícios para o nosso município.”

Da floresta, o grupo seguiu para o viveiro, onde as sementes viram mudas.


A equipe acompanhou as etapas de preparo e conheceu a máquina que produz biopotes, recipientes biodegradáveis que vão para o solo junto com a muda, sem a necessidade de retirar embalagem plástica no plantio.


A floresta dentro da propriedade:
À tarde, a visita chegou à propriedade de dona Solange, agricultora familiar de Itapuã do Oeste e beneficiária da primeira fase do Quintais Amazônicos.


Hoje a área funciona como Unidade Demonstrativa de restauração produtiva. Na prática, é uma propriedade que serve de exemplo para outros agricultores, mostrando que dá para recuperar a floresta e continuar produzindo.

Solange conhece de perto o receio de quem ainda não experimentou o modelo. “Eu já participei de algumas reuniões, de ouvir a pessoa falar: mas eu tenho a terra pequenininha, eu vou plantar a árvore, eu vou acabar com a minha terra e não vou ter nada.” A resposta que ela dá vem da própria experiência. “Em vez das florestais te tirar a renda, vai te agregar.”
Para ela, o trabalho com as famílias passa por mostrar que conservação e produção não se excluem. “Conscientizar as famílias de que elas precisam produzir. Elas precisam ter renda e qualidade de vida. Porque hoje eu vejo a qualidade de vida, ela anda junto com a minha fonte de renda.”

Os sistemas agroflorestais, conhecidos como SAFs, são uma das alternativas mais procuradas pelos agricultores da região. Eles combinam culturas de retorno mais rápido, como a banana, com açaí, frutíferas e espécies florestais como andiroba e copaíba.
Três anos depois:
No segundo dia, o grupo visitou o Centro de Bioeconomia e Conservação da Amazônia (CBCA), em Vila Nova de Teotônio, Porto Velho. A área foi cedida pela Santo Antônio Energia, hoje Axia Energia, e parte dela era pastagem degradada antes de começar a ser convertida em floresta. A visita foi conduzida por Beatriz Rocha, chefe de laboratório da Biofábrica de Bananas da Rioterra, que acompanhou a implantação dessas áreas desde o começo.


O grupo passou por áreas de plantio total, em que as mudas são plantadas em linhas, e por uma área de muvuca, técnica em que uma mistura de sementes de várias espécies é lançada diretamente no solo. “Quando eu entrei na Rioterra, essa área tinha acabado de ser implantada. Essas árvores que têm aqui nessa área, elas estavam bem pequenininhas”, lembra Beatriz. “Eu não achei que elas teriam essa capacidade de crescer tão rápido em tão pouco tempo, né? Passaram três anos, piscou, elas já estão aqui, desse tamanho.”
A mudança aparece também na vida que voltou para o lugar. “Antes as árvores eram pequenas, a gente não via animais por aí e a gente hoje em dia vê pássaros, vê serpentes.”
A comunidade do entorno participa do plantio, recebe treinamento e ajuda a proteger as áreas. Quando houve um princípio de incêndio, foram os moradores que avisaram a equipe a tempo. “Acho que por a gente envolver diretamente eles nesse processo, eles se sentem também responsáveis por isso”, conta Beatriz.

Sementes para o futuro:
A arquiteta Brenda Li Pereira, da Prefeitura de Porto Velho, saiu do CBCA com novos planos. “Não é a minha área de atuação dentro da Prefeitura de Porto Velho, mas me possibilitou ter muitas ideias para projetos para melhoria do nosso viveiro e técnicas de produção de mudas para reflorestamento”, disse. “Estou saindo aqui com muitas ideias para projetos e muita esperança de que a gente possa fazer uma parceria futura entre Sema e a Rioterra para produção dessas mudas e melhoria da qualidade de vida na área rural.”
Para Dirleide, o caminho mostrado nesses dois dias resume o que a cooperação busca. “Isso é importantíssimo, saber que da própria natureza, da própria área de proteção, mesmo dos próprios produtores, é possível tirar a semente, capacitar que eles possam fazer suas próprias mudas e recuperar as áreas que sejam necessárias. Esse é o nosso grande objetivo.”