Entre 27 de setembro e 2 de outubro, a Rioterra participou de uma missão técnica no Rio Grande do Sul, em parceria com o Sistema OCB/RO e o Sebrae Rondônia. Em seis dias, a comitiva passou por quatro municípios do interior gaúcho para conhecer de perto experiências de cooperativismo, agroindústria, agricultura familiar e crédito rural. O objetivo é trazer para Rondônia ideias, práticas e contatos que ajudem a fortalecer essas áreas no estado.
O destino tem um motivo. O Rio Grande do Sul reúne algumas das cooperativas mais antigas do país. Elas foram criadas por famílias de imigrantes que, há mais de cem anos, se juntaram com os vizinhos para conseguir crédito, vender melhor o que produziam e continuar vivendo no campo. A pergunta que acompanhou o grupo durante a viagem foi: o que dessas experiências pode funcionar na realidade de Rondônia?
Crédito que nasceu no interior:

A primeira parada foi em Nova Petrópolis, na Sicredi Pioneira. Ela foi fundada em 1902 pelo padre Theodor Amstad junto com moradores da Linha Imperial e é reconhecida como a primeira cooperativa de crédito da América Latina. Hoje atende 21 municípios entre o Vale do Sinos e a Serra Gaúcha. A vice-presidente da cooperativa apresentou ao nosso grupo como funciona o modelo de gestão: os associados são donos da instituição, participam das decisões e o resultado volta para a comunidade.
Esse tema tem peso para a agricultura familiar de Rondônia. Muitos agricultores ainda ficam de fora do Pronaf, a linha de crédito do governo federal com juros reduzidos para a agricultura familiar, por causa de pendências na documentação, falta de regularização ambiental ou falta de assistência técnica. Conhecer uma cooperativa que construiu ao longo de mais de um século uma relação de confiança com os produtores rurais ajuda a pensar caminhos para mudar esse cenário.
Trabalho em família

No dia 29, em Feliz, a comitiva conheceu a propriedade dos Irmãos Seidel, na Linha Vale do Lobo. A visita mostrou como a agricultura familiar e o associativismo podem transformar uma sociedade. É uma produção tocada pela família que, por estar organizada com outros produtores, consegue chegar a mercados que sozinha teria dificuldade de alcançar.


No dia 30, o destino foi Carlos Barbosa, sede da Cooperativa Santa Clara. Criada em 1912 por 17 agricultores descendentes de imigrantes italianos, ela é a cooperativa de laticínios mais antiga em atividade no Brasil. Hoje tem cerca de 4,8 mil associados, mais de 2,3 mil deles produtores de leite, e capta perto de 22,5 milhões de litros por mês. Depois de conhecer a estrutura da cooperativa, a comitiva foi a campo visitar produtores de leite associados e ver como funciona, no dia a dia, a relação entre a propriedade e a cooperativa.


O último dia de visitas foi em Encantado, na Dália Alimentos, uma das grandes referências do cooperativismo agroindustrial gaúcho. A cooperativa nasceu em 1947, quando 387 suinocultores da região se uniram. Hoje processa carne suína, frango, leite e queijos, vende para todo o Brasil e exporta para mais de 15 países. É um exemplo de como a agroindústria permite que o agricultor ganhe mais pelo que produz, em vez de vender só a matéria-prima.
O que fica para Rondônia:
A Rioterra trabalha há mais de 25 anos com agricultores familiares em Rondônia, em projetos de restauração florestal, sistemas agroflorestais, regularização ambiental e pagamento por serviços ambientais. A experiência mostra que a floresta fica de pé por mais tempo quando a família que vive ao lado dela tem renda e acesso a mercado e a crédito.
Uma coisa que a viagem deixou clara é que todas essas cooperativas começaram pequenas, com poucas famílias e muita confiança entre elas. O tamanho veio depois da organização. É essa lição que a comitiva traz de volta para seguir construindo, junto com os parceiros, soluções para o campo rondoniense.