Solange Simão mora em uma propriedade de Itapuã do Oeste, no interior de Rondônia, desde que conquistou a terra ainda degradada. Não havia mata, nem reserva, nem produção. “Ela era tão degradada que não tinha nada”, lembra. Depois de anos de trabalho com sistemas agroflorestais, hoje a propriedade tem mais de 15 mil árvores florestais plantadas junto com espécies frutíferas. A história dela conquistou todas no lançamento do Quintais Amazônicos II, realizado pela Rioterra nesta sexta-feira (31), em Porto Velho.

Com apoio financeiro do BNDES, através do Fundo Amazônia, o novo projeto terá o investimento de R$ 55,4 milhões e atenderá 32 municípios de Rondônia até 2030, com meta de recuperar 3.000 hectares e apoiar 1.500 famílias da agricultura familiar. Ele é a continuação dos projetos Quintais Amazônicos e Plantar, ambos executados pela Rioterra entre 2013 e 2017, e 2018 e 2024 que recuperaram 742 hectares e 2750 hectares , respectivamente , beneficiando 3799 famílias nos dois projetos.




Fabiana Gomes, presidente da Rioterra, explica que o novo projeto é estruturante e nasce da experiência acumulada em mais de 25 anos de trabalho com agricultura familiar no estado. “A gente entende que aliar geração de renda com cadeias específicas da bioeconomia, para agregar na região, junto com a regularização, é cada vez mais necessário. Então a gente traz isso como mote para o Quintais Amazônicos dois”, diz.

Segundo ela, o projeto olha para além dos limites de cada município e organiza o trabalho por regiões de aptidão produtiva. O cacau concentra os esforços nas regiões central e sul do estado, enquanto o açaí tem foco na região norte. “A gente cria núcleos. Esses núcleos vão poder gerar, para o futuro, nichos dessa cadeia”, afirma Fabiana.
Entre as novidades da nova fase está a instalação de uma biofábrica de mudas de banana, a primeira do tipo em Rondônia. “A gente olhou para tudo que já tinha sido feito em Rondônia e vimos também as oportunidades que tem, pelos próximos anos, dentro dessas cadeias da economia”, conta a presidente da Rioterra.
Alexis Bastos, coordenador geral do projeto explica que o atuará em duas frentes: quem quer começar a plantar cacau, açaí ou banana, e quem já produz e precisa de assistência para aumentar a produtividade. “Tem muito agricultor querendo migrar de pecuária para outras atividades, por exemplo produção de cacau. O projeto entra pra quem não tem cacau, e pra quem já tem as suas áreas de produção, ele aumenta a produção”, diz.

Para daqui a cinco anos, o coordenador espera ver famílias com a renda dobrada, triplicada ou até quadruplicada. “Eu espero que a gente tenha um ambiente da agricultura familiar mais valorizado, com pessoas felizes no campo, com autoestima elevada. Esses são os impactos que a gente espera”, afirma.
Desóstenes Nascimento, da diretoria técnica do Sebrae em Rondônia, avalia que o projeto reforça um movimento que já vem sendo construído por outras organizações do estado. “Isso traz um resultado muito importante, principalmente para o produtor da agricultura familiar, que é mudança de qualidade de vida e aumento de renda”, diz. Ele lembra que banana, açaí e cacau já fazem parte da história de Rondônia, que começa a se posicionar no cenário nacional como produtor de qualidade. Sobre a articulação entre instituições que sustentam o projeto, resume: “A cooperação tem sido um valor para Rondônia. A gente precisa mostrar que, além de falar, nós estamos fazendo.”

De volta à sua propriedade em Itapuã do Oeste, Solange já pensa em quem ainda hesita em participar. Ela lembra que, no início, muitas famílias achavam que entrar num projeto como esse era “plantar mato”. Hoje, vendo o resultado na prática, ela virou uma porta-voz do Quintais entre os vizinhos. “O mais importante é poder inspirar outras famílias a participarem. Hoje elas veem, na prática, a questão da renda familiar e da regularização ambiental, e são inspiradas a também procurar”, conta.

Para quem ainda está com receio de dar o primeiro passo, o recado dela é direto: “O Quintais dois vem ainda mais potente do que o um, com mais tecnologia e mais aprendizado. Mergulhe de cabeça, porque daqui a oito, dez anos você vai estar colhendo os frutos.” Na propriedade dela, a frase tem base concreta: hoje ali crescem pupunha, açaí, cerejeira e pequi em produção, plantas que ela viu nascer do zero.